Um conceito negro de ação política
por DENNIS DE OLIVEIRA
O racismo contra negros é uma ideologia que justificou várias ações de opressão. Primeiramente, legitimou a colonização da África e, conseqüentemente, a espoliação das riquezas e dos povos em benefício da Europa. Depois, justificou a escravização de africanos para trabalho nas Américas colonizadas, propiciando acúmulo de riquezas tanto com a empresa do tráfico como com a mercantilização de mercadorias produzidas com mão de obra escravizada. E, finalmente, o racismo serviu, no Brasil, para legitimar um sistema social injusto, com brutais desigualdades sociais e ausência de oportunidades para os afrodescendentes.
A ideologia do racismo funciona criando hierarquias "naturais" baseados em um critério não científico que é a exist ência de "raças humanas". Com isto, a ideologia do racismo mascara uma desigualdade CONSTRUÍDA que beneficia uma minoria e prejudica uma imensa maioria. As"raças" tidas como inferiores são aquelas formadas por seres humanos que participaram de processos históricos e civilizatórios diferentes do padrão europeu, hegemônico. São os que passaram ao largo da tradição judaico-cristã. E por isto, são povos que possuem concepções de mundo e cosmológicas diferentes e que, assim, podem construir trajetórias históricas particulares, inclusive apresentando respostas para problemas graves que a civilização ocidental hoje não consegue apresentar perspectivas.
O povo afrodescendente brasileiro é herdeiro de uma rica tradição, a do multiverso africano. Uma tradição plural que, ao ser transplantada à força para o Brasil, reconstruiu e ressignificou todas as demais tradições, criando modelos originais de organização, simbolização e visão cosmoló gica.
As opções oferecidas pelo sistema capitalista brasileiro são pequenas - e mesmo as poucas opções sempre passam pelo reconhecimento da superioridade e, mais que isto, pela universalidade da experiência européia. Por isto, ao mesmo tempo que admite a inclusão de poucos negros no sistema social - em geral, admitidos dentro de espaços limitados permitidos, como o das atividades lúdicas, artísticas e esportivas - também apresenta como preço a pagar um branqueamento simbólico ou uma invisibilidade desta marca, por meio de uma verdadeira pressão ideológica.
Foi por isto que o presidente eleito dos Estados Unidos da América, Barack Obama, praticamente teve que abrir mão de fazer um discurso mais marcadamente racial (embora a identificação dos afro-americanos com ele foi imediata e mesmo a sociedade política norte-americana tenha admitido isto) como fosse um calmante a ser dado a uma tradição cultural que se acostumou a ser plenamen te dominante.
Ser militante negro anti-racista neste contexto exige não só a defesa radical da igualdade plena de oportunidades e eqüidade social, mas também uma recuperação das matrizes que nos faz participantes de uma experiência histórica diferenciada e que legitima ideologicamente as opressões raciais. Isto porque o modelo civilizatório hegemônico está em crise - não tem respostas para a destruição do planeta, para o aumento da miserabilidade, para a destruição dos recursos naturais, para a exclusão social com marcas raciais e de gênero - e não consegue construir alternativas societárias dentro dele para resolver tais problemas. Mas é possível construir alternativas sociais a partir das particularidades históricas nossas, a partir de uma reconexão com as tradições dos nossos ancestrais e as ressignificações do mundo que vivemos hoje.
O objetivo da luta contra o racismo é construir uma nova utopia com todo o axé dos ori xás, inquices e voduns.
por DENNIS DE OLIVEIRA - Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, sócio-fundador da Unegro e membro do Neinb (Núcleo de Pesquisas e Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro da USP) e do Centro Cultural Orunmila de Ribeirão Preto (SP). Presidente do Celacc (Centro de Estudos Latino-Americanos de Cultura e Comunicação da Universidade de São Paulo). E-mail: dennisoliveira@uol.com.br
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